TECNOLOGIA

CARYBÉ - As Sete Portas da Bahia

Desde o dia 21 de agosto de 2014, o leitor do CORREIO pode conhecer ainda mais da história cultural de seu estado. Neste dia, começou a ser encartada gratuitamente, às quintas-feiras e aos domingos, a coleção As Sete Portas da Bahia, que reúne mais de 200 ilustrações a nanquim do artista plástico Carybé (1911-1997), argentino que adotou a Bahia como sua terra até a sua morte, aos 86 anos. As publicações seguem até o dia 21 de setembro.

Além do jornal impresso, você pode ter os fascículos também no Aplicativo do Correio, disponível em plataformas iOS e AndroidPara ler as edições do jornal, você pode comprar edições únicas ou ser assinante digital do Correio, por apenas R$ 9,90/mês.

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As Sete Portas da Bahia: A feira de Água de Meninos
Leia abaixo o primeiro volume.

Arte acessível a todos

Quando chegou à Bahia pela primeira vez, vindo da Argentina em um navio, em 1938, Carybé (1911-1997) teve a sensação de  que não foi a sua embarcação que atracou nos portos daqui. “Foi a Bahia que atracou em mim”, afirmava, como lembra Gilberto Sá, presidente da Fundação Pierre Verger, 73 anos. 

E foi essa Bahia que entranhou em Carybé que está retradada na Coleção As Sete Portas da Bahia. A série de desenhos em preto e branco, feitos  em nanquim, começou a ser publicada em 1951, sob o nome de Coleção Recôncavo. 

A publicação, feita com material barato para que pudesse ser acessível a todos, como desejava Carybé, continuou até 1955, depois de render diversos volumes, compilados em 1962 em um livro com novo título: As Sete Portas da Bahia.

E é esse mesmo trabalho que, 51 anos depois, poderá ser adquirido pelos leitores. “Gabriel Bernabó (neto de Carybé) procurou o CORREIO porque acreditava que o jornal poderia refazer o que Carybé havia feito muito antes: democratizar o acesso à sua obra”, diz Sérgio Costa, diretor de Redação do jornal. 

O livro original foi dividido em dez fascículos, correspondentes aos capítulos daquela edição. O primeiro é A Feira de Água de Meninos, que será seguido por A Festa do Bomfim. Cada volume tem dois textos assinados pelo próprio Carybé e um posfácio de Jorge Amado (1912-2001). E, na sequência, virão outros temas que retratam a Bahia, sob o olhar de um dos seus maiores artistas. 

Bahia Baiano?

Sim, apesar de nascido em Lanús, na Argentina, em 1911, Carybé se via mais baiano do que muitos nascidos aqui, como lembra o galerista Roberto Alban, 53: “Os trabalhos de Carybé tinham muita ligação com o candomblé, a puxada de rede, as feiras populares... Foi um homem que se envolveu intimamente com a cultura baiana. E a publicação desses desenhos no jornal é uma grande maneira de aproximar Carybé dos baianos”.

O artista plástico baiano e diretor-curador do Museu Afro Brasil (São Paulo), Emanoel Araújo, 73, ressalta que Carybé traduzia com extrema habilidade, em linhas, o sentimento que tinha pela Bahia: “Carybé tinha um trabalho muito sutil e delicado e isso pode ser notado nesta coleção, muito bem-vinda porque  populariza a criação  dele”. 

Araújo destaca também que a coleção publicada representa uma oportunidade de resgatar os tempo de uma Bahia que já não existe mais.

 

Acaso

O impressionante é que essa paixão de Carybé pela Bahia começou praticamente de maneira acidental, quando, em 1938,  ele foi obrigado a permanecer em Salvador por muito mais tempo do que planejava quando chegou aqui.

Contratado pelo jornal argentino El Pregón, o futuro artista plástico havia recebido dois meses de salário para viajar pela costa marinha sul-americana.  Em cada cidade que parasse, como Montevidéu, Santos e Rio de Janeiro, deveria mandar desenhos e textos que mostrassem suas impressões do lugar.

Tudo ia muito bem até chegar a Salvador, quando Carybé foi ao correio receber seus próximos salários, mas foi surpreendido com uma carta da família. “Na posta restante, não havia dinheiro, só uma carta de meus irmãos dizendo que o jornal tinha falido, que estavam tão duros quanto eu”, disse Carybé, anos depois. 

A permanência por aqui acabou se estendendo por seis meses. E a produção artística daquele período, inspirada no cenário baiano, acabou rendendo sua primeira exposição individual, em Buenos Aires.

Em 1949, depois de 10 anos vivendo no país onde havia nascido, ele decidiu voltar para a Bahia. Mas, para evitar surpresas, como da primeira vez, fez alguns contatos e, no Rio, conseguiu com o amigo Rubem Braga (1913-1990) uma carta de recomendação que lhe permitiu conseguir uma bolsa de trabalho para se sustentar.

Mesmo depois de rodar o mundo, Carybé acabou escolhendo a Bahia como principal fonte de inspiração. “Depois de conhecer praticamente todo o mundo, meu avô escolheu a Bahia por acreditar que aqui havia acontecido com mais amplitude a miscigenação entre as etnias, que ele tanto admirava”, diz Gabriel Bernabó, baiano, 43,  editor da Pan Artworks, responsável pela publicação de As Sete Portas da Bahia, no CORREIO.

Gabriel, que tinha 26 anos quando o avô morreu, lembra-se bem da infância, passada em parte na casa de Carybé, em Brotas, onde o artista mantinha seu ateliê. 

Recorda-se da simplicidade do avô, que gostava de ser amigo tanto de intelectuais, como Jorge Amado, como de gente mais simples, a exemplo de operários ou “gente do povo”, como diz Gabriel.

“Ele detestava ter que botar paletó ou sapatos para compromissos sociais. Gostava mesmo é de ficar no ateliê, sem camisa e de chinelos”, lembra Gabriel.

E aquela mesma casa preserva até hoje os pincéis e cavaletes que Carybé usava para trabalhar. É ali que, futuramente, o Instituto Carybé pretende abrir sua sede com uma biblioteca com mais de três mil volumes e objetos pessoais de Carybé para que os baianos sintam-se ainda mais próximos do legado do artista.