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Cidades devem ser planejadas para moradores

Lição da Copa de 2014 é que investir na qualidade de vida dos habitantes transforma os espaços em mais acolhedores também para visitantes

Thais Borges (thais.borges@redebahia.com.br)
Atualizado em 07/07/2017 12:46:05

Se tem uma coisa que é possível tirar de lição da Copa do Mundo de 2014 é que a cidade deve ser pensada para seus moradores e não exclusivamente para turistas. “Essa perspectiva subordina a qualidade urbana exclusivamente a um contexto atípico para não-cidadãos. Uma cidade comprometida em oferecer uma boa qualidade de vida aos seus moradores certamente poderá oferecer uma boa estada aos seus visitantes.

O inverso, no entanto, nem sempre é verdadeiro”, pondera a professora da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Ufba Any Leal Ivo, que lançou, em junho, o livro Para Além dos Jogos de Futebol, fruto de sua tese de doutorado, pela Edufba. Para ela, além de trazer visibilidade, outro legado do Mundial de futebol foi o endividamento das instâncias de poder.

“A privatização dos espaços públicos, seja pelo desequilíbrio entre as áreas públicas e privadas, seja pelo caráter excludente resultante da ‘elitização’ de alguns pontos da cidade também são resultados desse legado. No caso de Salvador, não se pode deixar de registrar a perda do Estádio Otávio Mangabeira (Fonte Nova), sendo que os espaços esportivos previstos como compensação a essa perda ainda não foram finalizados”, analisa a professora, que considera que a mobilização da sociedade, como os protestos ao redor do país desde junho de 2013, também foi uma herança.

Para o professor Roberto Brito de Carvalho, da PUC de Campinas, o setor público tem um papel fundamental nesse processo. “É ele que lidera e organiza, mas é a iniciativa privada que executa. Cabe ao setor público induzir, virar referência de articulação. Embora, no Brasil, a gente muitas vezes tenha uma relação promíscua entre o público e o privado, o ideal é que eles busquem seu papel para maximizar os resultados dos investimentos”.

Visibilidade

Quando as Olimpíadas do Rio começarem, em 2016, Salvador terá uma vantagem: voos da Europa para cá são mais curtos do que voos diretos para lá e para outras cidades do Brasil, como São Paulo. E isso, para o diretor para América Latina da Agência Catalã de Turismo em São Paulo, Joan Romero, pode ser uma chance de atrair mais turistas de fora, através de escalas e conexões. E, claro, é imprescindível investir em melhorias no aeroporto, nos hotéis, na mobilidade...

“O mundo vai saber que os Jogos Olímpicos terão Salvador como subsede. Salvador tem que aproveitar isso para vender o melhor da cidade nessas transmissões na televisão. Porque Salvador já tem tempo bom o ano todo, tem boa comida, boas praias”, destaca Romero.

O professor Roberto Brito de Carvalho, da Faculdade de Ciências Econômicas da PUC de Campinas, diz que, apesar de Salvador ser referência para a história e a cultura do Brasil, a cidade ainda precisa aprender a cuidar de seu patrimônio histórico. “Se, por um lado, a gente tem um povo que é caloroso, também tem um povo que cuida mal do patrimônio”. Além disso, em momentos de grande exposição, ele diz que se deve evitar experiências de visibilidade negativa.

Exemplos de Barcelona

*Retorno - O projeto dos Jogos Olímpicos custou 12 bilhões de euros. Por outro lado, o faturamento foi de R$ 34 bilhões. A organização do evento conseguiu capitalizar em cima da marca ‘Barcelona 92’ desde a venda dos ingressos até patrocínio.

*Mais leitos - Com a visibilidade de grandes eventos, o setor hoteleiro das cidades precisa se modernizar e ampliar para acomodar os visitantes. Em Barcelona, o número de leitos passou de 13 mil para 34 mil em 23 anos.

*Revitalizar espaços - Barcelona requalificou os principais pontos de chegada dos turistas: o porto e o aeroporto. No caso do Porto, sua capacidade aumentou tanto que o número de visitantes que chegam por lá foi de 132 mil para 2,3 milhões.

*Atrair investimento - Hoje, a Catalunha, onde fica a cidade de Barcelona, é responsável por 20% do PIB espanhol - o maior entre as 19 comunidades autônomas do país. A maior parte disso vem justamente do turismo, além da indústria e do setor de serviços.

*Sequência - Após o evento, é preciso continuar com melhorias na infraestrutura e qualidade de vida dos moradores, não apenas para chegada de turistas.

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