TECNOLOGIA
Mais Lidas
César Romero

César Romero: Humanidade e Arte

César Romero

Um dos maiores críticos de arte do Brasil Jayme Maurício (1926 – 1997) passava no final da década de 80 por um momento de dificuldade financeira. Preocupado com as contas que não paravam de chegar, aceitou fazer um texto de apresentação para o catálogo de uma artista sem nenhuma representação como criadora. Jayme cultíssimo, rígido, aceitou a encomenda, que causou espanto entre seus colegas e a comunidade cultural do Rio de Janeiro.

O crítico apenas “descreveu” os trabalhos a serem expostos, sem análises, nem juízos de valor. Não envolveu interpretações, nenhuma formulação teórica – filosófica. Apenas registrou o que os olhos viam, nada mais. A grita foi enorme, e ele em calmaria retrucou: “a maioria dos artistas são medianos, bons são raros, eu escrevi sobre esta pintora, e não estou fazendo mal a ninguém”. Todos calaram, até os mais radicais, os de pensamento rígido e raivosos. Jayme Maurício sabia escrever, coisa que não é fácil e seu texto tão bem posto como literatura, parecia elogioso. Não era. Sim, bem escrito. Se a maioria dos artistas são medianos, como disse Jayme Maurício é bem melhor que ruim. Gênios na história da humanidade, desde seu início podem chegar a 100, com muito esforço.

A presença de Marcel Duchamp (1887 – 1968) foi libertadora para a arte do século XX. Ele está entre estes 100, Duchamp dilatou caminhos. Viveu uma década como pintor, passou por todos os estágios da pintura do seu tempo, e se descobriu um pintor mediano. Um dos homens mais inteligentes de sua geração não via futuro em suas soluções plástico visuais. Inventou os readys–mades, objetos que o artista separava de seu contexto original, modificando seu significado, anestesiando-os esteticamente. Seu primeiro, Roda de Bicicleta data de 1913, seguiram-se Porta Garrafas e Fonte, seu trabalho mais significativo. Duchamp também abriu espaços para oportunistas fazerem bobagens em nome da arte contemporânea, que não se sustentam no bom senso. Fazem o marketing do escândalo, discursos inflamados querendo calar quem questiona. Duchamp num momento ruim falou que “arte é tudo aquilo que chamo de arte”. Não é verdade, um equívoco do gênio. Humano que era, então passível de enganos. Esta frase serviu e serve para se fazer qualquer “coisa” em nome da arte, ou copiar malíssimo Duchamp.

A arte é clara, ela denuncia o bom e o ruim, o legítimo e o blefe. Atesta criadores, ratifica carreiras ou aponta farsas. Fazer sucesso com uma ou duas exposições individuais não é tarefa difícil: um bom curador, com conhecimento, olhar arguto e massificação midiática. Mas manter uma carreira por décadas, defensável, que siga um trajeto de coerência é tarefa árdua, de difícil construção e está montada na essência do artista, na disciplina e credo no ofício. É importante o artista estar atento a carreira, para que tentações como o mercado, o modismo e a longevidade não venham  causar danos ao conjunto da obra. A longevidade é um bem divino. Traz limitações, o gesto criador não mais atente as emanações cerebrais, declinando as sinapses. A primeira coisa que acontece é a deficiência da inteligência espacial, a capacidade de desenhar, pintar, compor objetos e visualiza-los mentalmente. As habilidades cognitivas fragilizam. Bem melhor para a carreira saber parar. Isto não é demérito, é a natureza, a que todos estamos submetidos. Atletas de quase todas as modalidades, dançarinos, modelos necessitam parar, é doído, mas adequado. Dizem que artistas visuais se tornam melhores aos 70 anos, negam a neurologia. Muitos se mantêm em atividade por pressão familiar, do mercado, estruturação do tempo ou fatores outros. Saber parar é proteger o legado, nunca uma fraqueza.

Que fique bem claro é uma decisão voluntária, nunca um decreto, nunca uma punição. Pode-se trabalhar até o final dos dias, mas separar adequadamente a melhor parte das produções. Assim se tem a obra protegida. 

publicidade

Últimas

+ Notícias