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Nelson Cadena

Nelson Cadena: o pau de sebo nas festas juninas

Se você tem curiosidade em conhecer a origem da brincadeira do pau de sebo nas festas juninas do Brasil, então, somos dois. Sabemos que foi uma tradição de origem portuguesa, quanto a isso não há dúvidas, aliás, traição Ibérica, para ser mais exato, a julgar pelo célebre quadro de Goya, “pau de sebo”, que data de 1787. Sabemos também que na Itália se cultivava a brincadeira, no segundo domingo de maio, nas festas da Caltanissetta, na comunidade de Milena, na Sicília.

Sim, mas quando o pau de sebo passou a fazer parte das festas juninas? A minha pergunta tem como motivação o fato de nunca ter visto nenhuma referência nos jornais do século XIX e primeiras décadas do século XX desta manifestação cultural associada às festas de São João e São Pedro. Na Bahia o pau de sebo fazia parte de todas as grandes festas religiosas e, por incrível que pareça, desapareceu de todas.

Há citações nos jornais antigos do pau de sebo nas festas de Nossa Senhora de Sant’Anna, hoje conhecida como festa do Rio Vermelho, ou Iemanjá; Santo Antônio da Barra; Nossa Senhora da Guia; Senhor do Bonfim; Nossa Senhora dos Mares de Amaralina; Nosso Senhor dos Navegantes; Nossa Senhora da Luz; Itapoã e São Gonçalo, na capital. E também na festa de Nossa Senhora da Purificação, em Santo Amaro.

O pau de sebo ainda fazia parte das brincadeiras das festas populares da Bahia até meados da década de 1950. Eu mesmo vi, certa feita, uma foto de Pierre Verger, de 1948, que mostra garotos subindo no pau de sebo, colocado próximo da Igreja da Conceição da Praia, na tradicional festa de 08 de dezembro. O estranho é que a brincadeira do pau de sebo tenha sido banida das festas populares para ser incorporada pelas festas juninas e ficar associado a elas, como tradição. Em muitos municípios do interior o pau de sebo é tão indispensável quanto as fogueiras e as quadrilhas.

Talvez a explicação esteja, faço aqui um exercício de imaginação, nas características “sujas” dessa tradição cultural. Pau de sebo é um mastro de madeira, originalmente untado com sebo de boi, ou de cera, mas que acabou mais tarde sendo untado de graxa, tornando mais “suja” a prática de subir e escorregar, na tentativa de alcançar o topo. O pau de sebo desde suas origens esteve associado também a uma premiação. Era dinheiro, ou algum objeto de valor, amarrado no alto. Valia a pena!

Imagino que os prêmios deixaram de existir, ou diminuíram de valor, e essa deve ter sido uma das causas para seu desaparecimento. Mas, a causa principal, suponho que tenha sido a sujeira que provocava com um monte de gente melada de graxa circulando num espaço cada vez mais exíguo. Se mal se podia andar em algumas dessas festas populares, aonde colocar o pau de sebo e como controlar o público melado? O que era divertimento tornou-se um problema, sem falarmos nas questões de segurança que também passaram a ser consideradas.

E então, se minhas ilações fazem sentido, a brincadeira do pau de sebo migrou para a área rural e nesse caso nenhuma festa melhor para acolhê-la do que as festas juninas com suas brincadeiras de sortes e outras associadas. Luís Gonzaga e Manoel Bandeira eternizaram o pau de sebo, o primeiro no ritmo de forró, o segundo em versos. Lua cantou: “Quero ver você subir/No pau- de- sebo/Você é que é atleta/E diz que é campeão/Que tem medalha à beça/E da salto, sem mão...

O poeta, não deixou por menos, na sua viagem à Passargada: “...  Montei em burro brabo/Subirei no pau-de-sebo/Tomarei banhos de mar/E quando estiver cansado/Deito na beira do rio...”

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