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Sofrendo em silêncio: evangélicas são as que mais buscam o Loreta Valadares por violência doméstica

Elas também são as que menos denunciam. Pastores dizem que a violência contra a mulher deve ser enfrentada

Thais Borges (thais.borges@redebahia.com.br)
Atualizado em 10/07/2017 11:18:34

Se os membros da Igreja Assembleia de Deus em Lauro de Freitas, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), fossem descrever a aposentada Vanúcia dos Santos, 48 anos, é provável que, entre as palavras, estivesse a expressão ‘mulher de oração’. Evangélica há quase nove anos, as preces eram tão presentes em sua vida que, no dia 23 de junho, chegou a pedir à nora que fizesse uma ‘campanha de oração’ pelo companheiro, de quem tinha se separado há poucas semanas. 

Vanúcia acreditava que o marido, o marceneiro José Cosme Alves de Brito, 51, estava ‘doente espiritualmente’. A bebedeira, as traições e o comportamento violento não passavam de uma fase daquele homem que, até então, aparentava compartilhar da mesma fé que ela. Mas a campanha nunca teve a chance de ser iniciada. No dia seguinte, 24 de junho, a aposentada foi vítima de um feminicídio: foi morta a facadas por José Cosme, segundo parentes e vizinhos.

Como ela, outras mulheres evangélicas têm sofrido caladas. As evangélicas são as que mais buscaram ajuda no Centro de Referência de Atenção à Mulher Loreta Valadares, este ano, mas também são as que menos vão às delegacias registrar denúncia.  A própria Vanúcia nunca tinha buscado a polícia. Sequer dava mostras do que acontecia na intimidade do casal – a família só conheceu mais dos problemas nos dias seguintes à tragédia.

Diante de toda sua fé, Vanúcia acreditava que seu casamento voltaria às boas. José Cosme voltaria a ser amoroso e atencioso. “Ela acreditava que, se foi Deus que deu o casamento, ele (Deus) também restauraria aquela união”, conta a nora da aposentada, sem se identificar.

 

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Evangélica, Vanúncia  foi assassinada pelo companheiro
Foto: Reprodução

“Mulheres evangélicas são valorosas. Mantêm a fé com Deus, creem na libertação. Então, eu creio que o próprio Deus se encarrega de cobrar essas coisas que fazem mal a elas”, completa a nora. José Cosme foi espancado pela população, após cometer o crime. Desde o dia 24 de junho, ele está internado no Hospital Geral do Estado (HGE) e não foi ouvido pela polícia, mas o pedido de prisão preventiva já foi concedido pela Justiça. 

Religião e atendimento 
Vanúcia nunca foi ao Loreta. Mas, das 112 mulheres que chegaram ao centro só no primeiro semestre deste ano, 37 eram evangélicas como ela – o que representa algo em torno de 33% do total. Para dar uma ideia, a população evangélica em Salvador, de acordo com o último Censo, era de 19,6%.

Fora a questão da religião, as outras estatísticas de atendimento refletem estudos sobre violência contra a mulher. A maioria (88%) das que buscaram o Loreta eram negras, estudaram até o Ensino Médio (44%) e tinham renda de menos do que um salário mínimo (30%). Em pesquisas como o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher de 2014, editado pela Secretaria de Políticas para as Mulheres da Presidência, os dados são parecidos: as mulheres negras são maioria (59,4%), por exemplo.

De acordo com a coordenadora da unidade, Maria Auxiliadora Alves, muitas das mulheres que vão ao Loreta não registraram boletins de ocorrência em delegacias. Algumas ouviram falar do serviço através da imprensa ou da rede de atendimento, mas não conseguem buscar a polícia. 

“Muitas não se sentem preparadas para dar continuidade ao processo. Mas isso não impede que a nossa equipe dê todo suporte a essa mulher, porque nosso trabalho é sigiloso e acolhedor. Nossa função é acolher essa mulher e fazer com que ela perceba essa situação de violência”.

De fato, são poucas as mulheres evangélicas que decidem registrar uma denúncia contra seu agressor, de acordo com a titular da Delegacia Especializada de Atendimento à Mulher (Deam) de Periperi, Vânia Matos.

“Geralmente, elas acham que não devem registrar, por estar na Justiça ou na delegacia prejudicando alguém. Entregam a Deus. O entendimento de algumas é que, mesmo sofrendo, tem que viver (com o agressor)”. Ela diz que “as poucas que chegam” são conduzidas por policiais após uma situação ou vão devido a denúncia de uma terceira pessoa. Mesmo assim, não costumam querer prosseguir.

No Loreta, a religião nunca é colocada no centro do atendimento. Maria Auxiliadora reforça que é preciso ter cuidado – às vezes, uma única palavra pode soar como se a pessoa estivesse desconsiderando a religião da vítima de violência. “Quando uma mulher está numa situação de violência, tudo tem que ser muito pensado. Se você desqualificar a religião dela, ela pode silenciar e você nunca vai saber, porque ela não vai mais aparecer. Por isso, a gente trabalha do todo para as partes”. 

A major Denice Santiago, comandante da Ronda Maria da Penha, também diz que a religião das mulheres atendidas deve ser respeitada e observada com cuidado. Só que, nesse caso, são aquelas que já passaram pela dificuldade de dar prosseguimento ao processo: a ronda acompanha cerca de 1,1 mil mulheres com medidas protetivas no estado.

Talvez por isso, entre elas, as católicas sejam maioria – são 45%. A população católica por aqui fica em torno de 52,3%, segundo o IBGE. As evangélicas, contando testemunhas de Jeová e adventistas, chegam a 35%.

“As que eu encontro já passaram por essa dificuldade, mas é muito complicado entrar em questões culturais e religiosas. São mulheres que entraram nesses lugares e descontruir isso é muito difícil. Mas tanto elas quanto outras podem recuar (e não continuar acionando a Justiça)”.

'Nas mãos de Deus’

Um dos dados mais conhecidos sobre violência doméstica e religião é da pesquisadora Valéria Vilhena, doutora em Educação e História Cultural, autora do livro ‘Uma Igreja sem Voz’ e uma das fundadoras da Evangélicas pela Igualdade de Gênero (EIG). Segundo a pesquisa que desenvolveu em seu mestrado, 40% das mulheres vítimas de violência doméstica eram evangélicas.

Ela diz que é muito comum que mulheres em situação de violência deixem o relacionamento ‘nas mãos de Deus’. “A violência do agressor é combatida pelo ‘poder’ da oração. As fraquezas de seus maridos são entendidas como ‘investidas do demônio’, então, a denúncia de seus companheiros agressores as leva a sentir culpa”, explica.

Para Valéria, a igreja é responsável por feminicídios como o de Vanúcia, mas também poderá fazer parte da solução e fazer diferença no enfrentamento à violência contra a mulher. “Lar e igreja precisam ser lugares de amor, acolhimento e não de dor. A igreja precisa entender que, quando a violência física entra na relação, as mulheres já sofreram outras violências, principalmente a verbal e a psicológica”.

Por outro lado, a bispa Lorena Brandão, do Ministério Batista Internacional do Caminho das Árvores (IBCA), afirma que a violência contra a mulher é tratada na igreja como é tratada em outros ambientes.

“As mulheres que se encontram nesta situação devem sim tomar as suas providências. Muitas podem até ter medo da exposição ou de uma represália do agressor, mas Deus nos deu vida para sermos felizes e não para sofrermos. Na Igreja, existe apoio psicológico, assistência social e demais ajudas. Com certeza, desassistida a mulher não será”, assegura Lorena, que é vereadora de Salvador (PSC) e professora de Direito.

Ela acredita que não é comum que mulheres numa situação abusiva deixem de denunciar seus agressores por esperar uma restauração divina do relacionamento, mas admite que há muitas que podem pensar assim. “Deus não quer que a gente sofra. Ele nos fez para sermos felizes e viver de acordo com os ensinamentos dele. A Bíblia diz que o Senhor odeia a violência, e jamais faria alguém passar tanta dor”.

O pastor Isaías Lins, da Igreja Batista dos Mares, diz que nunca se deparou com nenhum caso de violência no ambiente da igreja, mas também afirma que o tema deve ser abordado com abertura.

“Se ninguém quer falar, eu falo. Qualquer assunto contextualizado no momento, eu trago para a igreja, inclusive sobre diversidade, porque sou terminantemente contra qualquer discriminação, seja sexual, religiosa, o que for. Nós devemos viver em inclusão”.

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